A ESCRITA DOMÉSTICA
Eu, quando menino, via meu pai escrevendo. Até que um dia lhe perguntei o que escrevia. Ele me respondeu que escrevia literatura. Grafo literatura, com minúscula, porque eu nunca achei, depois que meu pai morreu, nenhum escrito dele. Mas que os houve, houve. Prova disso foi que minha mãe os escondeu de mim. E eu perguntei a ela porque. Ela respondeu:
- Para que vocês os filhos trabalhassem e ganhassem o pão de cada dia.
Eu compreendi. Claro, vivi um tempo em que era difícil ganhar o meu salário. E valeu a pena trabalhar. Hoje tenho tudo, conforme diz a minha secretária, o que preciso e algo mais. E a mesma secretária diz: minha vida é excelente.
E é mesmo excelente a minha vida. Hoje escrevo aqui e onde posso mais. Não com a intenção de me exibir. Estes que escrevem para dizer isso ou aquilo, como se o fizessem para aparecer, são parentes do pavão. Eu nem sei mesmo para que escrevo. Às vezes escrevo coisas belas, às vezes escrevo coisas tristes. E só. Um amigo me disse:
- Um dia destes você estoura no mercado.
O que ele queria dizer é que eu poderia ficar famoso. A minha primeira intenção porém não é essa. Eu não sei mesmo para que escrevo. Alguns dizem que fazem de fato Literatura. Eu chamo de Literatura o que faço. Mas chamo de Literatura sem me perder no dito de Drummond:
-"Duro, duro ofício de me expressar."
O grande poeta tinha o que dizer aos leitores. E quem sou sou perto dele? Isso eu digo:
- Devemos mesmo é ter senso crítico.
Esta expressão eu aprendi com um amigo, que me disse:
- Você tem senso crítico!
Ele me dizia isso a respeito de minha modéstia de sempre. Modéstia que eu considero uma qualidade. E que beira à humildade. E humildade é uma grande qualidade. E eu não sei se o sou. E tenho dito. E que Deus me abençoe. E que Deus nos abençoe.
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