SOMOS A MELHOR PARTE DE MINHA MÃE

Quando minha mãe morreu, eu disse à minha irmã caçula:

- Criou sete filhos.

E minha irmã caçula me disse:

- E bem criados.

E estou aqui, contente, salvo e vivo. Minha mãe às vezes precisava ser durona. Eu vejo hoje que se ela não fosse assim, nós não teríamos saído o que somos.

E enquanto escrevo procuro ter uma imagem da melhor para escrever sobre minha mãe. Embora eu não goste de fazer imagem das pessoas.

 Mas vou escrevendo sobre minha mãe hoje. Quantas vezes ela não salvou-me do perigo? É verdade. Embora pareça brincadeira dizer que uma mulher salvou a vida de um homem. Eu não sou o pior do sujeitos, eu não diria isso de mim. Mas muitas vezes, sendo de saúde frágil, vacilei e lá fui correr perigo. E se não fosse minha mãe, eu não sei não.

E uma tia minha me disse:

- Dornas, eu não te entendo.

E não é que ela não gostasse de mim. A pobre da minha tia estava acostumada com um filho quase perfeito, em comparação a mim. O que ela não entendia era a minha saúde. O que meu médico disse para mim esquecer. E me esqueço, Já basta este registro.

Minha tia coitada era uma mulher da classe média, que queria o melhor para o filho dela, e para nós os sobrinhos. O que ela não entendia é que nós os sobrinhos tivemos uma sorte diferente. E até que nos saímos bem na vida. Eu quase me formei em Filosofia. Só não me formei porque não gostava do autor que era dado para que o estudássemos. Mercês, minha irmã, se formou em Direito e advogou em algumas causas. Morreu com água na pleura. Lílian, a afilhada dela, se suicidou. Guido, o mais enfermo, morreu de morte natural. Minha mãe morreu aos noventa e um anos. Também de morte natural. Estamos vivos eu, Caio e Viviane. E, ah, já ia me esquecendo, Heloisa, a mais velha também vive.

E que somos uma família. Aos trancos e barrancos somos.

E minha tia não me entendia, porque eu não amei me enriquecer. Sou pensionista, e por motivo de saúde frágil que exige que eu tome remédio controlado.

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