SOBRE A SOLIDÃO

Trabalhei há anos numa biblioteca. Eu era o único funcionário homem lá. Elas, as biblitecarias, assim que terminavam suas tarefas, conversavam um pouco para logo em seguida recomeçarem. Numa dessas, um dia eu ouvi a conversa delas. Nada de mais, elas falaram sobre uma conhecida em comum. O caso é que essa conhecida vivia muito sozinha. Não me lembro o que eu pensei ou senti sobre isso naquela hora. Mas hoje, eu acabei de rezar a minha missa pela TV, e me veio a lembrança desta conversa. Estou aqui só, sozinho, passando o meu sábado como passo todos os meus sábados. E lembrando da conversa, pensei em mim hoje. 

Estou só, sozinho. Mas não me queixo. Acho até bom, porque logo cedo fiz meus exercícios de fisioterapia, dei minhas caminhadas e tomei meu banho. E é só, sozinho, que sentei-me à minha mesa de trabalho e li um pouco. Li um pouco a poesia de Emily Dickson. Ler poesia me fascina, e como diz a minha empregada, é a hora em que eu viajo. E é mesmo uma viagem nas palavras dos poetas. No caso da poetisa.

E me ocorreu vir até aqui e anotar alguma coisa sobre a solidão. A solidão, me lembro bem, não é novidade na minha vida. Na época em que eu trabalhava, eu vivia sempre em quartos alugados. Algumas vezes em quartos de hotel. E quando eu voltei para a cada de minha mãe, ela me deu um quarto para morar. De onde eu saia pouco, só para a higiene pessoal, e para as refeições. Ou então para conversar um pouco com alguém. Mesmo quando minha mãe vivia, vinham poucas visitas até nós. E, agora, que ela morreu, não vem ninguém. É que eu trabalhei a vida inteira em cidades mineiras e uma vez em uma cidade do interior paulista. Não levei vida rude. Mas eu não sou, talvez, uma personalidade cativante. Decerto, não.

Digo personalidade cativante, destes tipos que são extremamente sociais. E que portanto tem aquele carisma próprio das pessoas que agradam.

E, portanto, a mim cabe a minha solidão. A que eu chamo de solidão criativa. Porque é nos momentos solitários que eu escrevo. Esta minha escrita eu dedico aos solitários. E tenho dito. E que Deus me abençoe, e digo um pouco mais, sempre resta uma esperança.

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