O PRESENTE

 Quando meu pai morreu, minha mãe me deu a máquina de escrever dele de presente. O problema é que nós os filhos, por problemas de finanças da família, tivemos que nos dirigir ao mundo do trabalho. O trabalho a que me dirigi exigia muito de mim, em termos de hora gastas para trabalhar. E o meu sonho de me tornar escritor ia ficando difícil. Antes do meu primeiro emprego escrevi minhas primeiras coisas. Daí em diante tive seis empregos. Não suportava a competitividade nos empregos. Defeito meu ou não, esta dificuldade era real. Fiz as provas para admissão ao curso superior de Filosofia. Aprovado, escutei de um colega uma coisa de que não me esqueço: "Não se pode é ficar crente." E, realmente, nunca fui crente de que por ser admitido na Filosofia, já era filósofo. Sabia que para isso me esperava um longo caminho a percorrer. Mal dos males, me vi desempregado pela primeira vez. Quem me consolou? Foi minha mãe. E foi ela quem me disse: "Meu filho, reze que tudo se arranje." E agora aqui, posso dizer que tudo se arranjou. Depois de seis empregos me aposentei. E sou um homem feliz, pois o dinheiro nunca foi a ambição graúda da minha vida. E sim ter uma obra escrita. Para escrever eu li meus bons mestres, fossem homens ou mulheres, pois as mulheres também são boas escritoras. E, nesse momento, me lembro do presente: uma máquina de escrever que fora de meu pai. Não a tenho mais. Tenho em seu lugar um computador pessoal que me possibilita realizar a ambição de escrever. Eu não sei ao certo, mas o mundo das letras é feito de humanos, com seus sentimentos, com suas ambições até além das puras letras, e é bom eu parar por aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SOMOS A MELHOR PARTE DE MINHA MÃE

CONVERSÃO DIÁRIA

AS DORES DO CORPO E AS DA ALMA