CIDADÃO DO INTERIOR
Depois que meu pai morreu, nos mudamos para a capital. Decerto os ares eram novos para nós, minha mãe e nós os sete irmãos. Compramos uma casa onde nos instalamos. Nos empregamos todos e começamos então aí nova vida. Nas ruas e avenidas os automóveis, os ônibus e os caminhões. Para atravessar uma via, tínhamos de esperar o sinal se abrir para nós os pedestres. Empregados fomos logo estudar. A chefe da nossa família era minha mãe. E que mãe ela foi sempre e até o fim. Decerto éramos humanos e como outro humano qualquer adoecíamos. E quem cuidava de nós era a mãe. Por fim eu a chamava de supermãe. Mas o mal estar que a cidade grande me causou foi o de ter que raciocionar depressa. A calma que me era costumeira ficou na cidade do interior onde nasci. Mas consegui estudar na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e não me formar. Parabéns para mim, dirá o leitor. Dirá outro parabéns quando eu disser, e vai ser agora, que um texto meu foi premiado na I Bienal do Livro de Belo Horizonte. Explico: até ali, a minha vida inteira, nos momentos de folga, lá estava eu debruçado com os olhos nos livros.
O leitor há de achar que eu me repito muito. Explico-me dizendo que eu viajo com o pensamento nas minhas pequenas coisas. E descubro sempre que aquele alucinado ritmo de vida do grande centro sempre me fez foi mal. Um conhecido dificilmente se faz amigo. Porque eu o conhecia ali, no outro dia nem sabia onde encontrá-lo. Me disseram que lá as coisas mudaram. Deus queira.
Mas vim acompanhando minha mãe de volta para o interior. Nada me fez tanto bem, e eu me sinto melhor. Como se nunca tivesse saído do interior. E a cidade grande que narrei acima agora existe é na minha memória.
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