CADA UM COM SEU SONHO
Durante grande parte de minha vida, chegava na empresa onde trabalhava e procurava logo me ocupar. No fim do mês recebia meu salário e ia comprar livros e fazer o armazém. Me lembro de uma frase bíblica: "Nem só de pão vive o homem." Com o alimento para o corpo eu satisfazia o meu estômago. Com os livros eu alimentava o meu espírito. E mal dava ouvidos a uma parenta minha que dizia: "Os livros estão caros." Nem tão caros os livros eram assim. E com o corpo sem sentir fome eu me sentia fortalecido fisicamente, e com o espírito eu pensava na vida, na literatura, e podia ir até o Palácio das Artes admirar as obras de pintura ganhadoras dos últimos prêmios. Quer dizer, nem só de pão vive o homem, e estava lendo ali um livro de um padre, e ele diz: "Somos corpo e alma." Foi isto que me inspirou a vir até aqui e registrar isto que me veio à mente.
A minha parenta ao dizer que os livros estavam caros, não o fazia por mal. Queria ela, talvez, fazer com que me sobrasse mais dinheiro para gastar com outras coisas. E para que tenham ideia esta parenta me faz falta à companhia. Eu gostava de trocar ideias com ela. Mas, os indivíduos são tão diferentes entre si. O ideal de vida dela era comprar um apartamento num bairro melhor e criar o filho único dela. Ela fez isto com muito garbo e, esteja ela onde estiver, porque morreu, eu a vanglorio aqui na face da Terra. E, por último, muito ela me influenciou no modo de pensar. Levo uma vida de pequeno-burguês, como ela, aposentado.
O que tenho de fé católica em Deus, eu devo a minha formação como pessoa neste mundo. Como escriba eu me formei lendo muito e estudando Filosofia até onde eu pude ir. E quando eu ganhei meu primeiro prêmio literário, aquela parenta me perguntou: "Literatura dá dinheiro." Coitada, levou a vida inteira juntando dinheiro para o apartamento e para o filho, que acabou só pensando em dinheiro. Eu a compreendo. Deus a tenha. E ao relatar isto eu não estou falando mal dela, porque existem muitas pessoas na face do meu país cuja luta é a mesma dela. Só peço que estas pessoas sejam tolerantes com os compradores de livros.
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